07/10/2011

Fotografa de Velório!

Esses dias tem me dado uma saudade louca de uma pessoa que eu amo demais, meu avô Onofre pai da minha mãe, mas que infelizmente o destino ou Deus quis tirar de perto de mim, sabe-se lá porque, meu avô foi por muito tempo meu pai, meu exemplo, meu amigo, meu conselheiro, meu tudo, e quando eu cresci e entrei na fase de não ligar pra nada nem pra ninguém (sim, eu estou falando da adolescência) eis que recebo a ligação de uma tia desnaturada, que sem nenhuma delicadeza deu a triste notícia. Ele morreu!
Morreu da melhor forma que um homem pode morrer, morreu velho, porém sadio, pode viver as coisas boas e ruins da vida, morreu do nada, sentado em uma cadeira no bar da esquina olhando os colegar jogarem sinuca, foi um suspiro fundo e nunca mais suspirar. Eu tinha 15 anos e me lembro como se fosse ontem. Eu queria morrer assim, quando eu tiver que morrer, infarto sem motivo aparente.
Eu morava 2 mil quilômetros longe dele e fiquei um dia e uma noite na estrada pra poder chegar no velório, ver o cara que eu mais amava morto e aparentemente sorrindo pra mim, as lágrimas corriam sem eu sentir, não tinha que fazer força pra chorar, nem barulho, nem careta, eram só lágrimas, e no meio de tantas lágrimas lá fui eu, de novo, pegar minha velha câmera fotográfica com um filme de 24 poses da kodak e tirar 24 tristes fotos para os parentes que não puderam ir no velório.
Ver como meu avô parecia sorrir pra mim no dia em que ele me deixava, me fez sentir que quem havia deixado ele fui eu, morei grande parte da minha vida com ele e quando ele se foi tinha mais de um ano que eu não o via, e faltava um mês pra ele voltar a morar comigo.
A pior parte foi o enterro, é ali que você percebe que nunca mais vai ver aquela pessoa, nem viva, nem morta, só na sua falha e distorcida memória, quando tampam o caixão e enfiam naquele buraco, é realmente o fim, é ali que a gente desaba e cai na real, é ali que você vê que (puts como tá difícil escrever isso!!!) tudo que você fez de bom pra aquela pessoa não era suficiente, você tinha que ter feito mais. Só que não existe uma segunda chance né.
Ufaaa - pausa - pra parar de chorar...
Foi a segunda vez na minha vida que eu tive que ser fotografá de velório, na primeira eu tinha uns 13 anos, foi o primeiro parente próximo que morreu, o meu outro avô pai do meu pai, esse foi bem pior, porque foi de câncer e a gente ficou vendo ele morrer aos poucos por 6 meses, no dia que ele morreu ficamos tristes e aliviados por ele ter parado de sentir dor, por ter ido finalmente descansar, como eu era mais nova e não tinha tanto contato assim com ele, quase não sofri tanto como sofre com meu outro avô, me doía mais vê-lo doente do vê-lo morto, tirei 12 fotos, fotos dele no caixão, do enterro, da dor da família, parece loucura isso né, eu também acho loucura que os parentes que não podem chegar à tempo queiram ver fotos de um morto em um caixão. Mais loucura ainda é quem se despõe a tirar essas fotos, acho que é por isso que sempre mandavam eu tirar, é fácil mandar em uma criança e eu sou meio louca por natureza.
Ainda tenho essas fotos em casa, no meu baú de fotos antigas, as vezes pego pra ver e me deparo com elas, me vem uma certa dor sabe, penso em como seria bom se meu avô Onofre pudesse ter conhecido a sua bisneta, minha filha Duda, ele ia amar ela e ela ia adorar ele, porque ele era adorável e toda criança gostava dele, era daqueles velhos que andam com os bolsos cheios de balas pra dar pras crianças. Ele hoje estaria com oitenta e tantos anos e provavelmente moraria comigo, eu ia fazer questão de cuidar dele da mesma forma que ele cuidou de mim quando eu era pequena, fico sonhando com isso as vezes. Mas com certeza a minha maior dor é por ele não poder ver como eu me dei bem na vida, como eu cresci, como eu sou uma mãe responsável e dedicada e como minha filha é linda e fofa, sei que a Duda ia amar ele tanto quanto eu amo, bom ...........
É bom imaginar como seria as vezes, mas é triste voltar pra realidade e saber que nunca vai ser assim. Hoje se tivesse outro velório na minha família com certeza eu seria a fotografá novamente, ainda mais agora que tenho uma câmera digital sem limites de fotos, mas as vezes penso que é melhor não ir em velórios, porque  quando eu tento me lembrar dos meus avôs eu não consigo me lembrar das coisas boas sem vir a imagem deles mortos nas minhas lembranças. Se eu não tivesse visto não teria como me lembrar e minhas memórias estariam mais vivas.
Acho que já falei demais né! Esse é só mais um texto da minha tag diário, pequenas e grandes coisas que aconteceram na minha infância.

Um comentário so far

  1. Faz 4 anos e 25 dias que meu vô faleceu! E não lembro se houve um dia nesse tempo todo que eu não tenha lembrado dele pelo menos uma vez ao dia. Meu querido vovô faleceu em circunstâncias lastimáveis,  também tinha câncer, como você mesmo sabe essa doença não perdoa e acaba aos poucos com a pessoa. Quando o médico nos deu o diagnóstico de câncer nos pulmões, para meu pai foi uma corrida contra tempo atras de médicos, especialistas para saber se meu vô tinha pelo menos uma chance!! uma chance apenas era o que a gente queria para poder se apegar, mas tudo foi em vão, pois a doença estava em um estágio tão avançado... 
    Tenho muito orgulho dele, ele é um exemplo para minha família! Lutou até o ultimo segundo. Ele amava animais, a natureza e nos seus últimos anos de vida pode ficar no lugar em que mais amava, pois meu avô quando saiu do interior para vir morar na cidade teve que vender o sítio onde ele e minha avó moravam, e alguns anos antes do meu vô falecer meu pai conseguiu comprar esse sítio novamente e o deu novamente para meu vô, que passou a morar la e criar animais, a plantar ...que era o que ele mais amava e a nossa felicidade era chegar o final de semana para irmos la ficar com ele! Infelizmente ele se foi muito cedo e com ele boa parte da nossa alegria.
    Perder um ente tão querido, deixa um vazio tão grande no coração que não tem explicação.
    Tenho certeza que o seu avô ve sim a sua filhota linda e deve sentir muito orgulho sim!
    Beijão 

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